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A paz que procuramos

Um amigo partilhou a seguinte mensagem no Facebook e eu decidi escrever este artigo.

Na minha opinião poucas coisas colocam, nos dias de hoje, um maior obstáculo à correcta percepção do Evangelho do que a prática do “sacrifício” pessoal como um meio reconciliador com o Deus das escrituras.

As obras já escritas sobre Antropologia da Religião demonstram, ao analisar o comportamento do ser humano ao longo da história, uma natural inclinação de este tudo fazer para tentar obter a aprovação de Deus. Essa predisposição de agradar a figura que intuitivamente todos reconhecemos como autor da realidade e juiz supremo ao qual prestaremos conta do que fizemos e pensamos durante a nossa vida, através do sacrifício pessoal, é tão antiga como o tempo. Porém, este conceito de penitência, o sofrimento pessoal, oferecido como pagamento de pecados cometidos é um conceito perfeitamente estranho à Bíblia. Façamos então uma comparação entre o que ensina a Igreja Católica, da qual este meu amigo é membro, sobre o tema,

“«Toda a eficácia da Penitência consiste em nos restituir à graça de Deus e em unir-nos a Ele numa amizade perfeita». O fim e o efeito deste sacramento são, pois, a reconciliação com Deus. Naqueles que recebem o sacramento da Penitência com coração contrito e disposição religiosa, seguem-se-lhe «a paz e a tranquilidade da consciência, acompanhadas duma grande consolação espiritual»1

O Sacramento da Penitência e da Reconciliação, artigo 4, tópico 1468 – link
1- Concílio de Trento, séc XVI, 14ª, Doctrina de sacramento Paenitentiae, c. 3: DS 1674

com o conteúdo apostólico das Escrituras que lhe deram origem.

“Sabemos porém que uma pessoa não é justificada pelo cumprimento da lei mas por meio da fé em Jesus Cristo. Ora nós cremos em Jesus Cristo para sermos justificados pela fé e não por termos feito o que a lei manda. Pois ninguém será justificado perante Deus por cumprir a lei.”

Gálatas cap. 2 ver. 16 – link

“Não desprezo a graça de Deus, pois se alguém pudesse ser justificado pelo cumprimento da lei, então a morte de Cristo de nada serviria.”

Gálatas cap. 2 ver. 21 – link

Nota: A lei a que estes versículos se referem eram os 613 mandamentos, leis ou regras contidas nos 5 livros primeiros livros da Bíblia, escritos por Moisés. O Judaísmo era uma religião fortemente legalista.

“Porque é pela graça que estão salvos, mediante a fé. E isto não é mérito vosso, é dom de Deus. Não vem das obras para que ninguém se glorie.”

Efésios cap. 2 ver. 8-9 – link

A caminhada do Cristão é imperfeita porque, mesmo após o novo nascimento -a conversão que vem até nós após entendermos e aceitarmos o Evangelho– continuamos infectados por essa doença chamada rebelião. Essa rebelião por vezes produz em nós pecados, e quando isso acontecer não vamos desprezar o sangue que Jesus verteu por nós tentando por nossos próprias mãos reconciliar a nossa vida com Deus. Antes, devemos confiar na promessas que os Apóstolos João e Paulo nos fazem,

“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós próprios e faltamos à verdade. Mas se confessarmos os nossos pecados, Deus que é fiel e justo perdoará os nossos pecados e nos purificará de todo o mal. Se dissermos que não cometemos pecado, fazemos de Deus mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”

1 João cap. 1 ver. 8-10 – link

“Mas agora não há condenação para os que estão unidos a Jesus Cristo.”

Romanos cap. 8 ver. 1 – link

Esta inclinação em fazermos algo que nos custa, feito com sacrifício, evento normalmente associado a um plano espiritual, seja uma simples caminhada, longas peregrinações, doações, sacrifícios animais ou humanos (este último felizmente já não muito vulgar) é um componente forte da maioria das religiões mundiais.

Mas, se podemos afirmar algo em relação ao Cristianismo e à forma como vingou no mundo ocidental é que esta não é uma religião igual às outras. Esta é uma religião cujas premissas se distinguem das demais já que foi instituída por Deus e não pelo ser humano. A grande diferença é esta: as religiões prometem que há um conjunto de acções e práticas que o Homem deve cumprir para dessa forma ganhar o favor de Deus, o sentido é ascendente, a isto chamamos salvação pelas obras.
Ao invés, o Cristianismo bíblico em perfeita oposição a todas as outras religiões, mostra-nos um Deus misericordioso que desceu até ao Homem para o salvar da -justa- condenação, já que ele não o podia fazer por si só. Deus pede para que o Homem confie n´Ele, por fé. A isto chama-se a salvação pela graça (graça=favor imerecido), por meio da fé.

A verdade é que somente podemos encontrar a completa paz na nossa vida após aceitarmos a obra cumprida por Jesus na cruz. Essa é a obra reconciliadora com Deus, não há outra. Essa obra é o Evangelho e é a que, como embaixadores de Cristo, temos o dever de anunciar aos habitantes desta terra naturalmente inóspita às verdades das escrituras.

O que dizer então àqueles que praticam e ensinam outros a ignorar a eficácia da obra já cumprida, a desmerecer o sacrifício de Jesus, a considerar essa obra como que imperfeita ou incompleta? Devemos em amor comunicar o mesmo que o autor da carta aos Hebreus, que foi bem claro quanto a este tema:

“Pensem bem quanto maior não deve ser o castigo que merecem aqueles que desprezam o Filho de Deus! E que será daqueles que desprezam o sangue da aliança que os purificou e que insultam o Espírito de Deus que lhes comunicou a sua misericórdia?”

Hebreus cap. 10 ver. 29 – link

Como suas criaturas, devemos honrar a Deus através da cuidadosa observação e prática do que nos foi por Ele deixado nas páginas do Novo Testamento. Todos os restantes ensinos ou práticas devem ser comparadas com os textos apostólicos, e, quando achados em discordância, os extra-bíblicos devem ser ignorados. Deus vai-nos julgar pelo que está revelado nas Escrituras, e não por aquilo que um homem, mulher, seita contemporânea ou organização religiosa milenar diz ser a verdade sobre Deus.

O meu conselho a todos vós é que procedamos na nossa vida sempre com o devido temor e respeito à já revelada guia de Deus, as Suas Escrituras, porque elas reflectem a perfeição do carácter divino do seu autor e como tal nunca nos causarão engano.

Jesus faz-lhe um convite, aceite-o.

“Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.”

Jesus em Mateus cap. 11, ver. 28-30 – link

E os seus fardos são leves.

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